Falta integração das ciclovias às iniciativas de controle da obesidade nos municípios

Adriana Aguilar      05/11/2013

No Brasil, as ciclovias – atreladas às secretarias de meio ambiente, de transportes e de obras –, são planejadas e expandidas com foco na redução do congestionamento, na diminuição da poluição e na mobilidade urbana (bicicletas integradas ao sistema de transportes públicos). Não há projetos e nem estudos em conjunto com as áreas de saúde dos municípios, relacionando as malhas cicloviárias de importantes cidades do País – Rio de Janeiro, Curitiba, Sorocaba, São Paulo – ao controle de doenças no longo prazo, como obesidade, hipertensão e diabetes.

A cidade de Los Angeles, no estado da Califórnia, Estados Unidos, por exemplo, usou US$ 16 milhões em financiamento para iniciativas de combate à obesidade. Em 2011, parte do dinheiro incluiu a ampliação das redes de bicicleta e promoção de espaços abertos. A estimativa nos Estados Unidos é de que 35% dos adultos norte-americanos são obesos. Por isso, o programa de compartilhamento de bicicleta tem sido adotado em mais de 20 cidades americanas, desde grandes cidades como Boston, Denver e Washington, até as mais pequenas, como Greenville, Boulder, entre outras.

Mais de uma dúzia de estados norte-americanos registraram taxa de obesidade de adultos acima de 30% em 2011. Em nenhum dos locais pesquisados, a taxa foi inferior a 20%, de acordo com novos dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDCs) – Centros de Controle de Doenças e Prevenção nos Estados Unidos .

Os CDCs recomendam uma série de mudanças na infraestrutura para o controle da obesidade em comunidades norte-americanas. Ciclovias, uso compartilhado de bicicletas, bicicletários, desenho urbano com calçadas adequadas , iluminação, travessias de rua, seja para caminhadas, passeio de bicicleta ou qualquer outra atividade física. Também a American Public Health Association (APHA) – composta por profissionais de saúde que atuam dentro e fora das organizações não governamentais e instituições de ensino – menciona projetos de transporte público, como conversão de linhas ferroviárias antigas em locais para caminhadas, como mais uma forma de controle da obesidade.

No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou, em agosto de 2010, os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008–2009), indicando que o peso dos brasileiros vem aumentando nos últimos anos. O excesso de peso em homens adultos saltou de 18,5% para 50,1% na última pesquisa — ou seja, metade dos homens adultos já estava acima do peso — e ultrapassou, em 2008–2009, o excesso em mulheres, que foi de 28,7% para 48%.

Em março passado, o Ministério da Saúde divulgou que o Sistema Único de Saúde (SUS) gasta anualmente R$ 488 milhões com o tratamento de doenças associadas à obesidade no Brasil. Os custos com o tratamento da obesidade grave atingem hoje R$ 116 milhões, segundo a pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), que rastreou os gastos com obesidade no SUS. Uma das iniciativas do Ministério da Saúde prevê o investimento total de R$ 390 milhões, em 2013, no Programa Academia da Saúde, com implantação de 2.800 pólos com infraestrutura, equipamentos e profissionais qualificados para a orientação de práticas corporais, atividades físicas e lazer em todo País. Os pólos estão em construção. As ciclovias não estão inseridas no programa.

O problema da obesidade afeta as classes A, B, C, D, E no Brasil. Parte da classe A e B, mesmo resistente em deixar o conforto do carro em casa, em função da obesidade, talvez, optasse por usar a bicicleta, desde que haja infraestrutura. Segundo dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), o Brasil é o terceiro maior fabricante mundial de bicicletas. A produção anual de bicicleta soma 4 milhões de unidades. A frota nacional corresponde70 milhões de bicicletas no País.

Copenhague, capital da DinamarcaÉ preciso haver engajamento ativo e financeiro do setor da saúde, de diferentes esferas públicas, no uso apropriado das ciclovias para este público. A Alemanha, Holanda e Dinamarca são os países mais avançados no uso de bicicletas no mundo, em qualquer segmento da população.

Copenhague, capital da DinamarcaNa Dinamarca, por exemplo, apenas 18% da população apresenta sobrepeso ou obesidade. Importante ressaltar que mais da metade da população dinamarquesa (55%) chega ao trabalho por meio de bicicletas, caminhada ou transporte público. Nos Estados Unidos, com percentual de obesos na faixa dos 35%, menos de 20% da população caminha ou pedala para chegar ao destino almejado.

Em agosto de 2013, foi divulgado o estudo chamado “Active Travel to Work and Cardiovascular Risk Factors in the United Kingdom (UK), de autoria das instituições Imperial College London e University College London. Foram entrevistadas 20.458 pessoas em todo o Reino Unido.

Os dados mostraram que 62% da população adulta no Reino Unido apresentava sobrepeso ou obesidade em 2011. Cerca de 19% dos entrevistados, que usaram transporte particular (carro, moto ou taxi)para chegar ao trabalho, eram obesos. O percentual é superior ao de caminhantes obesos (15%) e ao de ciclistas obesos (13%), segundo a pesquisa. Apenas 12% de todos os 20.458 entrevistados relataram caminhar até o local de trabalho regularmente.

O estudo mostrou que pessoas que pedalavam tinham 40% menos probabilidade de ter diabetes. A pressão arterial, em 50% dos ciclistas entrevistados, era inferior a dos motoristas de carros que seguiam para o trabalho.

A cidade do Rio de Janeiro, com uma população de 6,43 milhões de habitantes e uma área de 1.182 km², tem a maior malha cicloviária do Brasil, com 320 quilômetros. Entre 2009 e 2013, a malha passou de 150 km para os atuais 320 km. A expectativa é de alcançar 450 km até 2016, distribuídos em todas as regiões do Rio. A idéia é que o ciclista saia de casa pedalando ou alugue uma bicicleta, e estacione em um dos inúmeros bicicletários disponíveis nos BRT’S (transporte rápido por ônibus), metrô, rodoviárias, trens e barcas, e siga o seu trajeto em um transporte coletivo, evitando assim o uso do carro.

Segundo a secretaria municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, outra iniciativa é a implantação do Bike Rio, sistema de aluguel de bicicletas, que oferece nesse primeiro momento 60 estações com mais de 600 bicicletas disponíveis. O projeto está em fase de ampliação e se estenderá por todos os bairros da cidade.

O Rio de Janeiro registra mais de 1,5 milhão de viagens por dia com bicicletas, tanto para pequenos deslocamentos como para o uso por parte do comércio na realização de entregas domiciliares e prestações de serviço. Diante do contínuo investimento na malha cicloviária, a secretaria municipal de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, quando questionada, não mencionou nenhum estudo sobre a prevenção de gastos com a saúde em função dos aportes feitos nas ciclovias no município.

O presidente da organização não governamental (ONG) Transporte Ativo, José Lobo, que estimula o uso de bicicletas no Rio de Janeiro, desconhece pesquisa ou estudo do município, relacionando a atividade de ciclismo no Rio de Janeiro com prevenção de obesidade, diabetes, hipertensão.

Outra cidade que merece destaque, em relação à malha cicloviária é Sorocaba, município populoso do interior de São Paulo, com cerca de 630 mil habitantes e área total de 456 km². A cidade tem 106 quilômetros de ciclovias que cortam a cidade de leste a oeste e de norte a sul. Há planos de mais 20 quilômetros de ciclovia no curto prazo, afirma a assessoria de imprensa da Empresa Urbes – Trânsito e Transporte, responsável pela administração das ciclovias na cidade. Sorocaba é uma das primeiras cidades da região a ter ciclovias em trecho rodoviário. A estimativa é que existam 300 mil bicicletas na cidade.

O primeiro trecho do Plano Cicloviário de Sorocaba foi implantado em 2007. Juntamente com a malha cicloviária, estão sendo projetados paraciclos (estacionamentos de bicicletas), sendo um deles no terminal rodoviário, em shoppings etc. São projetados em locais estratégicos para facilitar a integração entre as ciclovias e os demais sistemas de transporte.

Na cidade, o empréstimo gratuito de bicicletas (Programa Integrabike) conta com 19 estações espalhadas na região central da cidade e na zona norte. Há 152 bicicletas disponíveis no programa. Cerca de 25% da população de Sorocaba usa o sistema Integrabike para complementar seus deslocamentos pela cidade. Não há qualquer estudo em andamento, relacionando o uso diário da malha cicloviária com a saúde.

No município de São Paulo, mais populoso do Brasil, com cerca de 12 milhões de habitantes, e área de 1.522 km², há apenas 60,21 quilômetros de ciclovias. O primeiro trecho foi inaugurado em 2008. Até o final do ano, cerca de 100 estações de compartilhamento de bicicletas devem ser implantadas na cidade. Ainda é muito pouco. Os investimentos realizados não incluem projeção de redução de despesas com a obesidade e doenças associadas (hipertensão, diabetes) no longo prazo.

Curitiba, capital do Paraná, tem 435 km² de área total, com uma população de 1,85 milhão de habitantes. Pioneira na implantação de ciclovias no Brasil, a cidade tem 127 quilômetros de malha cicloviária. O coordenador do projeto Ciclovida da Universidade Federal do Paraná (UFPR), José Carlos Assunção Belotto, também vice-presidente da Federação Paranaense de Ciclismo, por enquanto, desconhece qualquer estudo na cidade sobre o impacto do uso diário da bicicleta na saúde dos munícipes, prevenção de doenças etc.

Recentemente, a administração de Curitiba divulgou que, até 2016, pretende implantar mais 300 quilômetros de novas vias para a circulação de bicicletas. Além disso, planeja 25 conjuntos de paraciclos em diferentes pontos. A prefeitura também anunciou que vai criar bicicletários – estacionamento fechados – em 20 terminais de ônibus da cidade, totalizando até 1,5 mil vagas em todo o sistema.

Quem tiver curiosidade sobre quantas calorias um passeio de bicicleta, de média intensidade, a 15 quilômetros por hora, pode queimar, pode acessar o simulador do trajeto de uma bicicleta. O simulador é uma iniciativa do projeto Ciclovida, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenado por Belotto. O Ciclovida tem como foco fazer do espaço da universidade um núcleo de mobilidade urbana. Vigas de paraciclos foram desenvolvidas pela disciplina de design de produtos no curso de Arquitetura.

Também no curso de engenharia da UFPR, há um módulo sobre mobilidade por bicicleta. O programa Ciclovia ainda promove eventos: pedaladas, exposições, palestras. Tudo relacionado com bicicleta. Hoje, há mais de 1 mil paraciclos nos cinco câmpus da universidade, interligados por ciclovias. Outro eixo de atuação do Ciclovida é a articulação com a sociedade e poder público de Curitiba para o fomento da cultura da bicicleta.

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