Empolgação no home broker exige cautela

Adriana Aguilar      28/10/2009

homebrokerMilhões de reais negociados diante dos olhos de jovens, colados na telinha do home broker, comprando ou vendendo ações em casa. São horas a fio de conexão direta ao mercado de renda variável. Talvez, passem o dia todo no pregão, em detrimento dos estudos e de cuidados com a saúde. A importância da disseminação de conhecimento sobre o mercado de capitais aos jovens é indiscutível. Como também o desenvolvimento de competência e habilidade da pessoa física para os investimentos. Mas, é o momento de prestar atenção nas iniciativas exageradas dos jovens na frente do home broker, da mesma forma como são dados os alertas para quem fica grudado em um vídeo game.

O responsável pela área Educacional do Link Trade, o home broker da corretora Link Investimentos, Fábio Calderaro, explica que faz cerca de cinco palestras em diferentes Estados, todo mês. “Tem me chamado a atenção os adolescentes que faltam às aulas para ouvir as palestras de renda variável. Acham que o investimento em ações resolverá a vida deles rapidamente. O problema é que a grande empolgação pode se transformar em prejuízo com o passar dos anos, se os estudos ficarem para segundo plano”, explica.

Pesquisa feita no website Orkut, especificamente na comunidade chamada “BM&FBovespa-A nova bolsa”, criada há cinco anos e com 12.160 membros, procurou saber quantas horas do dia os assíduos freqüentadores da comunidade dedicavam ao home broker e ao estudo?

A comunidade “BM&FBovespa-A nova bolsa” foi escolhida porque o moderador da comunidade, Fábio Dozza de Miranda, mantém o foco das discussões centradas nos ativos de renda variável. Conectados no orkut e no home broker, os membros da comunidade informam ao longo do dia quais papéis estão subindo, caindo, ações que estão sendo colocadas à venda, quais as mais interessantes para compra e dados sobre empresas, por exemplo.

Entre os dias 26 e 27 de outubro, havia 23 respostas. O Felipe, de 23 anos, estudante de economia na Unesp, respondeu que acompanhava o pregão todo. Outro jovem, vestibulando de 17 anos, identificado como “Pomps” fica em frente ao home broker todo o tempo livre que tem durante o dia. Thiago, de 20 anos, que estuda à noite e faz os trabalhos durante o dia, explicou que não tem o número exato de horas de estudo, no entanto, fica mais ou menos cinco horas por dia no home broker. O participante da pesquisa, Rafael Miranda, de 22 anos, é formado em administração e, por enquanto, está sem estudar, gerenciando a loja do pai. Ele disse que está no home broker durante todo o pregão.

Na pesquisa, nove responderam que participam do pregão inteiro pelo home broker, enquanto o restante está na ativa de 2 horas a 7 horas. É importante ressaltar que os 23 participantes da pesquisa têm entre 17 e 49 anos, com atuações em diferentes áreas.

Hoje, 68 corretoras disponibilizam o home broker aos seus clientes. Considerando o cadastro de pessoas físicas (CPF), registrado pelas corretoras e agentes de custódia, até o final de setembro de 2009, havia 33.748 contas abertas de jovens, de 16 a 25 anos, ou seja, 6,5% do total de 515.506 contas de pessoas físicas na bolsa. Isso não significa que todos os jovens cadastrados operam home broker. Mas, a participação deles tem sido crescente.

Segundo o professor de finanças do Insper Instituto de Pesquisa e Ensino (ex- Ibmec São Paulo), Ricardo Almeida, nas classes de graduação com 60 alunos por sala, em média, cerca de 30% da sala manifesta que opera na bolsa nas aulas. “O acesso ao home broker facilita o aprendizado dos alunos. Ficam mais avançados em relação ao que está sendo exposto”, afirma Almeida.

“ Sempre explico aos alunos que o crescimento da economia e das empresas, daqui a uns 20 e 30 anos, levará o Brasil a outro patamar, sendo que a distribuição de riqueza à população se dará por meio da bolsa”, diz o professor ao mencionar a importância da prática dos jovens no home broker. “Muitos deles até descobrem que querem trabalhar na área”, completa.

A psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, professora de Psicologia do Investidor na FIPECAFI e representante do Brasil na Iaerp (International Association for Research in Economic Psychology), avisa que, em casa, o jovem consegue facilmente justificar aos pais a permanência exagerada dele no home broker. “A bolsa está subindo”; “Estou trabalhando e pensando no meu futuro”, “É a oportunidade para eu ganhar muito dinheiro”. “Qualquer desculpa esfarrapada será considerada pelos pais ou responsáveis”, diz Vera Rita.

Segundo a especialista em psicologia econômica, o Brasil está vivendo uma fase de muito otimismo, de expansão do mercado de capitais, de expectativa de ganhar dinheiro rápido. “Mas, a preocupação tem de ser maior com o adolescente do que com os adultos porque os jovens estão em uma fase de definição de identidade, agem com impetuosidade, seguem o que os outros colegas fazem. O comportamento de manada do adolescente é bem mais forte do que o de um adulto, somada à preocupação da falta de controle e de uma futura compulsão, principalmente, operando no day trade”, diz.

Acompanhando há cinco anos as operações de compra e venda de opções sem garantia, feitas por pessoas físicas, entre 20 e 30 anos, o operador Fernando Montanari, da Link Investimentos, diz que está cansado de ver investidores colocando R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 3 mil a cada dia e, no final, 99% quebra ou muda de estratégia. “Só uma única vez um investidor ganhou uma bolada e parou de operar”, completa.

“O divisor de águas entre o comportamento normal e o patológico é a perda de controle e o conseqüente exagero com prejuízos pessoais, sociais e financeiros. O comportamento é muito parecido com o de jogadores compulsivos e pode ser considerado um transtorno do impulso”, diz o médico psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Jogo Patológico e Outros Transtornos (AMJO), Hermano Tavares.

Segundo o médico, os adultos com problemas relacionados ao home broker já procuraram o ambulatório. A dificuldade é que o portador desse problema tenta muitas vezes interrompê-lo ou controlá-lo, mas fica inquieto, ansioso e angustiado diante a possibilidade de perder boas oportunidades de negócio, então retoma a atividade, ampliando as dívidas.

É importante que os jovens aprendam sobre o investimento de longo prazo, com o objetivo de formar patrimônio e não de riqueza imediata. É preciso construir algo com propósito claro, trocar idéias com especialistas no assunto, fazer planejamento, estudar para continuar crescendo , diz Vera Rita.

Dinheiro rápido e imediato não existe. O importante é não esquecer que uma carreira, um nome e uma marca não começam da noite para o dia. É resultado de estudo, dedicação, persistência, competência, talento e, claro, ter coragem de correr riscos e sonhar muito, mas na proporção certa, explica o consultor especializado em administração do tempo e produtividade pessoal, Christian Barbosa.

 

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