Commodities agrícolas continuam com preços elevados

Adriana Aguilar      31/08/2009

tabelaCommoditiesParte das commodities agrícolas acumula alta neste ano, depois do baque provocado pela crise financeira global no segundo semestre do ano passado. Soja, açúcar, café continuam subindo devido, principalmente, aos movimentos especulativos do mercado, segundo análise dos especialistas consultados.

Para o economista e diretor da RC Consultores, Fábio Silveira, há uma profunda desorganização de preços das commodities agrícolas. Os fundamentos de oferta e demanda para parte dos produtos negociados nas bolsas de Chicago (milho, soja e trigo) e de Nova York (açúcar, café), foram colocados em segundo plano, prevalecendo os movimentos dos fundos de investimentos.

“Há especulação no mercado futuro para valorização dos ativos agrícolas em um momento em que a economia mundial está em recessão, sem sinais sólidos de recuperação. É uma situação perigosa para o investidor, pois a qualquer momento poderá haver uma correção de preços, resultando em uma queda inesperada do preço da commodity”, afirma o economista.

Neste ano, a soja registrou valorização de 9,90% na Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros (BM&FBOVESPA). O analista do mercado de soja da Intertrading Agentes Autônomos de Investimento, Carlos Alexandre Gallas, explica que o preço da soja continua subindo, sem grandes fundamentos.

A produtividade continua alta nos Estados Unidos, sem qualquer problema climático. “Diante desse cenário, somente a continuidade da aplicação dos fundos de investimento na commodity agrícola, aliada à recuperação das principais economias mundiais, e uma provável alta na inflação poderiam ainda elevar o preço no próximo ano”, diz. As condições são bastantes remotas.

Silveira explica que o pequeno investidor precisa ficar atento ao estoque da soja, com previsão de crescimento de produção na safra 2009/2010. A conjunção dos fatores: aumento de estoque e famílias consumindo menos após a queda de renda, mostra que a sustentação de preço é artificial, sem correspondência com o cenário macroeconômico.

A valorização do açúcar na casa dos 40% na BM&FBOVESPA, no primeiro semestre do ano também chama a atenção. A pesquisadora da área Sucroalcooleira do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), da Universidade de São Paulo (USP), Mirian Bacchi, explica que o aumento do preço está relacionado à diminuição da oferta no mundo. Mas, no Brasil, há a expectativa de aumento de produção entre 12,5% e 18,5% para a safra deste ano.

A explicação é que a Índia está produzindo menos porque realocou para outros produtos. Devido à redução da oferta mundial, as exportações de açúcar do Brasil aumentaram de 2% a 23%, afirma a pesquisadora e professora da USP.
Nos anos de 2007 e 2008, o açúcar registrou os menores preços e, neste ano, quase dobrou. “Agora, os preços estão 55% maiores do que a média de abril e agosto de 2008”, explica Bacchi.

Para se ter uma idéia, a média do preço da saca de açúcar, de abril a agosto deste ano, ficou em torno de R$ 43,00 no mercado à vista, enquanto que, no mesmo período de 2008, estava em R$ 28,00 por saca. “Os preços dos contratos futuros do açúcar na bolsa de Nova York continuam elevados até julho de 2011, levando em conta a média histórica”, diz Bacchi.

“A alta do açúcar na bolsa está em patamar explosivo, incompatíveis com os fundamentos reais de produção e consumo”, diz Silveira. A demanda mundial do açúcar, ampliada pelas especulações do mercado, elevaram as cotações dos contratos futuros . Portanto, quem ficar na posição comprado ou vendido em soja, açúcar e milho, corre o risco de mudanças repentinas, conforme o deslocamento dos investidores que estão especulando o mercado.

Do início do ano até seis de agosto, o preço do milho negociado na BM&FBOVESPA caiu 19,43%, segundo dados da Intertrading Agentes Autônomos de Investimento (ver tabela). Uma parte da correção do preço da commodity já foi feita, no entanto, pode cair mais, se houver redução nas exportações do Brasil devido ao preço do milho nacional estar superior ao do norte-americano, explica o analista Carlos Alexandre Gallas. “A continuidade dos leilões de apoio à comercialização, realizados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), serão vitais para uma recuperação dos preços”, diz.

A situação se agrava quando levado em conta que, além do preço do milho interno superar o do milho norte-americano, lá fora ainda há um estoque acumulado do produto agrícola. O milho perdeu espaço para a soja nos Estados Unidos na safra 2009/2010. Os contratos futuros do milho, que vencerão depois da colheita, mantêm movimento de alta na Bolsa de Chicago. Já houve uma correção do preço para baixo e até há chance de subir um pouco.

Nos contratos futuros, a alta acumulada do café na BM&FBOVESPA no ano, até a primeira semana de agosto, corresponde a 24, 81%. Por ser uma cultura de caráter bianual, em função da natureza da planta, haverá redução da produção brasileira neste ano, com oferta restrita e até previsão de queda dos estoques para 2010. Este fato é um importante fator de sustentação do preço, impedindo que a queda de preço seja mais significativa, explica o economista da RC Consultores, Fábio Silveira.

Para a analista de mercado do Cepea, Camila Pirillo, pode haver uma leva alta do preço da commodity após agosto, quando a demanda por café nos países do hemisfério norte aumenta. Os leilões de contratos de opção de venda de café arábica, programados pela Conab, também devem estimular os preços. “Os dois fatores devem resultar em uma alta mais significativa do produto a partir de outubro”, explica.

Segundo Carlos Alexandre Gallas, a possibilidade de o governo intervir no mercado, comprando café, por meio dos leilões, mantém os produtores afastados. Por este motivo, a falta de produto de boa qualidade tem dificultado a realização dos negócios. A tendência dos preços para o café pode ser considerada de alta pelos estoques apertados e também pelo cenário positivo no mercado financeiro, com excesso de liquidez e taxas de juros baixas, projetando alta para a inflação.

 

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